- OS
FAÇANHOSOS CONTOS -
CONTO 01. EXÍLIO
PRÓLOGO
Flandres Ocidental, Bélgica
1789
O vilarejo
de Lièdenne-Heist se localizava no
estremo noroeste da província Flandres, uma região motanhosa rodeado de
penhascos, e banhada pelo mar norte. E foi aqui, que aparentemente essa
história começa, no outono de 1789. Não era de se esperar que um lugar como
Lièdenne seria palco de tais acontecimentos sobrenaturais. O vilarejo era de
desenvolvimento rural, muito longe das grandes cidades que começaram a se formar
pela Europa graças a evolução industrial. Lá, ainda daria para se encontrar
paisagens campistas, com vales e colinas que era habitada por cervos e ovelhas,
e com algumas construções de pequenos palácios
e castelos que foram erguidos em época de batalhas medievais.
Máel
Aayden, um homem de certa forma, quase de terceira idade, era pescador desde
criança, já que vinha de uma família de antigos marinheiros. Sua rotina matinal
era todas as madrugadas, por volta do pôr do sol, sair em sua canoa para ir pescar.
Máel Aayden não tinha esposa ou filhos, a única forma de parente mais próximo
era seu sobrinho Remi, filho de seu irmão mais velho já falecido. Ele já era
casado e morava na capital da Bélgica, muito distante e sem contato com seu tio
a anos. Sendo assim, qual outro programa Máel teria se não esperar a morte em
sua terra natal, fazendo aquilo sempre fez?
E assim
foi, Máel acabara de acordar e de se arrumar para sua atividade habitual, sua
casa ficava em frente ao mar, era um pequeno chalé de madeira. A manhã era
úmida como de costuma para a época do ano. Remou até a região onde sempre
achara mais peixes e posicionou sua vara de pescar ali.
Máel
sempre foi uma pessoa atenta e de sentidos apurados, porém, o que presenciaria
ali era algo que muitas pessoas nunca pensaria em ver. Ele nunca foi uma pessoa
supersticiosa, ou de acreditar em mitos e fábulas, nem mesmo quando era
criança, mas exatamente ali, esse fato não importava mais, era tarde. Máel estava
sonolento, e ele tinha total noção disso, porém não acabará de acordar e de se
aprontar? Mas não conseguia ir contra, era maior que ele, a sua último
lembrança foi sentir as coisas que o mais atraía, como cheiro de grama molhada,
a brisa do mar, e o canto dos animais marinhos. E foi assim, seus últimos momentos,
o seu fim. O barco virou e ele caiu no mar, seu corpo percorrerá mar a fora.
✩ ✩ ✩
O céu era
de um negro carvão, o único vestígio de luz era a lamparina que sacudida célere
das mãos de uma pessoa que tentava fugir freneticamente de uma pequena multidão
que a perseguia pelas robustas colinas. Ela era alta, e de cabelos tão
castanhos, volumosos e longos, que pareciam criar vida própria com o movimento
ganhado pelo o vento forte que o contra golpeava. Vestia um vestido velho e
desgastado, de um certo tom marrom claro, que combinavam com as cores de seu
cabelo. Mas nada disso importava para o que poderia estar por vir, pessoas
desferindo xingamentos e pragas ao persegui-la.
A
primeira vista, poderia se pensar que ela fosse algum tipo de criminosa ou
assassina que estava sendo procurada pela população daquela pequena cidade,
entretanto, o motivo não era esse. Na verdade, mais cedo, ela teria sido de
alguma forma sido entregue por simplesmente agir da forma que a natureza a
criou, quem poderia culpa-la por isso? Todos onde ali habitavam. Mas a vida
nunca foi justa, muito menos para quem detém responsabilidades tão grandes.
Ela sabia
muito bem o que lhe aconteceria se fosse capturada, e antes de dar o prazer de
ser morta pelos seus próprios vizinhos, ela conseguiu chegar onde queria. Parou
na ponta de um penhasco que dava a um fiorde que corria quilômetros afora das
colinas e montanhas. Ela sabia que não tinha cumprido sua missão mas que ali
não tinha mais o que fazer, já estava encurralada pela multidão e só havia duas
opções para seu destino.
— Profana,
não a lugar para gente como você em um lugar como esse, onde os valores e a fé
sempre nos cobriu, você deve pagar pelos seus atos diante do todo poderoso, ser
das profundezas do abismo – Disse um pequeno homem, franzino e gordo que
parecia ser de certa forma o líder da multidão.
— Você é
a verdadeira responsável pela morte daquela pobre alma – Disse uma mulher que
acompanhava a multidão também. – Deverá pagar.
Sim, ela
estava sendo acusada pela morte de Máel, pelos simples fato de ser mulher, e a
única pessoa que morava mais próxima a ele. O corpo de Máel boiou no mar por
dias até ser encontrado por um grupo de pescadores ao lançar a rede de pesca. O
corpo de Máel boiou no mar por dias até ser encontrado por um grupo de
pescadores ao lançar a rede de pesca. O corpo já se encontrava em um estágio
avançado de decomposição, ao certo, aquilo que os peixes não comeram. Mas como
saberiam onde ele morava? As pessoas do vilarejo mal o conheciam ou até mesmo
ser que importavam-se. Só se sabe que eles encontraram alguém para por a culpa
e todo o peso do mundo.
— Tolos,
vocês não compreendem nada, ignorantes. Vocês nunca terão o deslumbre de
presenciar minha destruição. um dia voltaremos ao nosso lugar de direito, e
antes que esse dia chegue, e até mesmo antes que esse desejo de me ver morta se
realize, eu prefiro isso! – Com bravura disse ela, e ao beijar um colar em
formato de “A” que ela detinha em sua mão, ela sussurrou algo e logo após se
atirou friamente do precipício, como se não teme-se a mais nada. Acabou.
Bom, como se pode imaginar, ninguém iria atrás do corpo dela. Ela não tinha familiares e nem amigos no local, era uma desconhecida por todos dali assim como Máel. A única coisa que um dia comprovaria sua existência era o lindo colar de prata que ela ainda deixará nesse mundo. Colar esse que um dos protestantes o pegou e anos depois o vendeu, para um comerciante nômade viajante. Mas quantas histórias um simples objeto pode levar? É aqui, onde isso começa.

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